
O Brasil, todos os dias, é movido pela força das mulheres. Muitas vezes invisíveis aos olhos de muitos, elas são hostilizadas, ridicularizadas, menosprezadas e até assassinadas por serem quem são, o chamado feminicídio. Ainda assim, seguem sustentando famílias, comunidades e instituições. Basta observar ao redor: estão nas escolas antes do sinal tocar, nos hospitais antes do plantão virar, no comércio antes das portas abrirem. Estão nos escritórios, nas salas de aula, nas periferias, nas prefeituras, nos centros e também na política, ocupando espaços que historicamente lhes foram negados.
Essa presença é resultado de uma longa luta. Até 1962, mulheres casadas no Brasil só podiam trabalhar, assinar contratos ou administrar bens com autorização do marido. Hoje estão em todos os setores e, muitas vezes, segurando o país quando ele insiste em desabar — como ocorreu durante a pandemia de covid-19, quando enfermeiras, professoras, médicas, cientistas e tantas outras estiveram na linha de frente.
Mas, apesar dessa força, a desigualdade permanece. Ser mulher no Brasil é viver uma jornada que não termina no fim do expediente. Após horas de trabalho, milhões ainda assumem sozinhas as responsabilidades domésticas e de cuidado.
A realidade é ainda mais dura para cerca de 11 milhões de mães solo no país — a maioria negras — que sustentam seus lares praticamente sozinhas.
A desigualdade também se expressa no mercado de trabalho, onde mulheres recebem menos que homens mesmo exercendo as mesmas funções, e na política, onde enfrentam sub-representação, violência política e resistência estrutural à sua presença nos espaços de poder. Garantir a participação feminina na política não é uma concessão: é uma condição para que a democracia seja plena.
Nesse contexto, o debate sobre o fim da escala 6×1 se torna urgente. Esse modelo de jornada amplia a sobrecarga, especialmente para as mulheres, que após o trabalho formal ainda enfrentam a jornada invisível do cuidado. Reduzir a jornada de trabalho significa garantir tempo para viver, estudar, descansar, cuidar dos filhos e romper ciclos de dependência.
Autonomia econômica, inclusive, salva vidas. Em um país que ainda convive com índices alarmantes de violência contra mulheres e meninas, muitas permanecem em relações abusivas por não terem independência financeira. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registra, em média, cerca de 1.400 feminicídios por ano — o equivalente a aproximadamente quatro mulheres assassinadas por dia em razão de gênero.
O combate à violência contra a mulher exige mais do que o endurecimento de penas. É preciso enfrentar as raízes da desigualdade estrutural. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem afirmado que essa luta também é responsabilidade dos homens, já que a violência, em sua maioria, é praticada por eles. Falar de igualdade salarial é falar de dignidade. É reconhecer o papel de mulheres negras, periféricas, mães solo, professoras, enfermeiras, comerciárias, agricultoras, trabalhadoras da cultura, cientistas e também das que ocupam cargos públicos e políticos, enfrentando diariamente o machismo estrutural para defender suas pautas. O 8 de Março não é sobre flores. É sobre justiça, políticas públicas e coragem para enfrentar desigualdades históricas. Se as mulheres são a força que move o Brasil, é hora de o Brasil se mover por elas. Porque, quando as mulheres avançam, toda a sociedade avança junto.
*Delúbio Soares é professor de Matemática, formado pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás). Além da atuação acadêmica, é sindicalista e político, filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT), do qual é um dos fundadores e também já atuou como tesoureiro. Além disso, foi um dos fundadores do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Goiás – SINTEGO e da Central Única dos Trabalhadores (CUT).